O novo presidente do Fed, Kevin Warsh, sinaliza o fim da era de ampla transparência de Powell.
A nomeação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve representa uma ruptura decisiva com a política de comunicação adotada por Jerome Powell, marcada por ampla orientação prospectiva (forward guidance). A mudança pode inaugurar um período de menor transparência e maior imprevisibilidade para os mercados.
Warsh defende que a prática de divulgar orientações detalhadas sobre a política monetária acabou tornando o banco central refém de suas próprias declarações. Segundo ele, os investidores devem se preparar para um regime com maior restrição de informações e mais incerteza.
Analistas do Deutsche Bank acreditam que o Fed poderá abolir o conhecido “dot plot”, o gráfico que apresenta as projeções individuais de juros dos membros do comitê. A ideia de Warsh seria ocultar as previsões individuais dos dirigentes e substituí-las por uma indicação mais geral da tendência central. O objetivo é fazer com que os mercados avaliem as condições reais da economia, em vez de tentar interpretar gráficos e pistas sobre as intenções do banco central.
A nova gestão também pretende reduzir a reação imediata a pequenas variações nos indicadores de inflação e emprego. Para Warsh, a dependência excessiva desses dados pontuais reflete uma análise superficial. Ele prefere focar tendências estruturais de longo prazo, como um possível boom de produtividade impulsionado pela inteligência artificial e pela desregulamentação — uma abordagem que remete ao cenário da década de 1990. Caso essa aceleração tecnológica se confirme, o Fed poderia manter os juros em níveis mais baixos; caso contrário, ignorar indicadores defasados pode reacender pressões inflacionárias.
O escolhido de Trump também pretende reduzir o ruído na comunicação do banco central, incentivando os presidentes dos bancos regionais do Federal Reserve a se pronunciarem com menos frequência. A estratégia de “uma voz, uma mensagem” busca diminuir a volatilidade provocada por declarações públicas divergentes entre autoridades. No entanto, limitar a exposição de dirigentes regionais — incluindo os presidentes dos Fed de Dallas e Minneapolis — pode gerar resistência interna e até levantar questionamentos sobre a independência do sistema.